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Em um momento no qual todos esperavam um retorno do partido ao seu berço, longe da direita, o partido só mostra mais politicagem e falta de...

Em um momento no qual todos esperavam um retorno do partido ao seu berço, longe da direita, o partido só mostra mais politicagem e falta de coragem


Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação.

Desde os anos 80, o PT talvez seja a sina, o carma e a musa da esquerda brasileira. Ou parte dela. Primeiro, como símbolo da luta trabalhista, de uma guinada ao “socialismo” (mesmo que moderadíssimo – se é que isso existe –, como visto algum tempo depois, com políticas centristas), de uma liderança sindical no poder executivo, algo impensável naquele momento, ainda mais em um Brasil pós-ditadura militar.

Depois, como uma real possibilidade do país se ver, pelo menos em partes, longe de políticas essencialmente neoliberais, como as privatizações, ou que atingissem aos direitos trabalhistas. O PT era a esperança de um povo que até ali era miserável, tanto em questões econômicas como também de amparo.

Muito foi feito, admitamos. Lula foi um grande presidente, como ícone e gestor. Soube articular, mesmo que não seguindo os preceitos mais dignos da moral, seus apoios e o que era necessário para fazer o que queria. Fez. E muita gente gostou, elogiou, abraçou a ideia. Muita gente não – muitas vezes porque incomodava o próprio bolso. Ou a própria ética.

Depois veio Dilma, a sucessora forçada de Lula, que se viu sem opções para seu trono. O PT continuando na área, com o slogan seguindo literalmente à risca o que estou expondo: “Renova a esperança”. Era a expectativa de todos – inclusive a minha, mesmo com alguns pés atrás.

E Dilma Rousseff se mostrou uma má administradora. Isso foi claro. Mesmo com sua honestidade, sinceridade e toda a sua personalidade e entusiasmo. E todas as suas péssimas decisões enquanto presidenta, acrescentadas à sua grande teimosia e incapacidade de articulação, permitiram aos “cobrões” de sempre, e pra sempre, enxergarem uma bela estrada até o poder.

Claro, todo o processo de volta aos 90 (80, 70...) e a iminência de se perder todo o pouco que o PT fez e podia fazer, não ocorreu antes do próprio PT fazer isso. O Partido dos Trabalhadores se tornou de centro, e nos últimos anos tem virado, deliberadamente, as costas para aqueles que os puseram e os mantiveram no poder. Não estou dizendo que a vida de Dilma enquanto chefe do Executivo foi fácil – e ela até impediu coisas piores de acontecer –, mas não pode se considerar como “governo de esquerda” uma gestão que enriquece banqueiros, que faz conchavos cada vez mais profundos com empresários, e que vende a alma tão barato a outros sanguessugas, como tem ocorrido nos últimos 6 anos.

E com o Golpe de Estado quase sacramentado, a posição do partido e da presidenta quanto à situação são absolutamente deploráveis. Primeiramente, em um momento em que todos assistiram aos mesmos ratos com que o PT se juntou, unindo-se para abocanhá-lo, é decepcionante não ver o partido se voltar para aqueles que sempre estiveram ao seu lado. Não mudaram as políticas de direita, não abraçaram os movimentos sociais e a ruas, não tentaram nada.


Foto: Divulgação.
Foto: Divulgação

Onde está a caminhada pelo Brasil que Lula prometeu fazer logo depois que foi tomado de assalto pela Polícia Federal? Dilma, então, balbucia aqui e ali um tímido “É Golpe!” em reuniões mais, digamos, particulares e intimistas, mas quando chega à ONU, frente a líderes mundiais, cujos países vêm denunciando o atentado contra a democracia que o país vem sofrendo, a presidenta recua com um discurso frouxo e broxante.

Quem vem defendendo a democracia e pedindo a saída dos arquitetos do Golpe (Cunha, Temer, Mendes etc.) é a própria esquerda contra a qual o PT virou a face. E não me refiro àqueles que vivem pensando fora da caixinha e bradando por causas absurdas. Posso até mesmo citar aqueles que só queriam uma reforminha no sistema em um cantinho ou outro.

É de conhecimento pleno de quem exerce o senso crítico de que Michel Temer e sua trupe irão sucatear o país. A tal ponto que as pessoas irão sentir falta do PT. Será essa omissão uma estratégia para vir forte nas eleições de 2018, como contraponto a um Governo que, apesar de apoiado por diversos setores influentes da sociedade, consegue ser mais desastroso ainda – ou em eventuais Eleições Gerais antes disso?

Se sim, o PT mostra o que se tornou. Mais um dos peões desse jogo de xadrez que começa e termina dentro do Palácio, e que em nenhum momento lembra das ruas e de seu povo – apenas quando é conveniente. É o touro que se finge de morto frente ao desalmado toureiro para se vingar em seguida, e não o que luta até a morte e busca a vitória apenas pelo fato da causa ser nobre e muito maior do que o triunfo em si. A esperança que antes só aguardava sua renovação, agora aguarda a eterna guinada à esquerda que nunca saiu e nem deve sair. Não esperançou, esperou. O vermelho desbota. Do PT e do Brasil.

Boa parte da imprensa do mundo todo consegue enxergar o erro que é tirar Dilma, nisso o brasileiro não copia os gringos (Imagem: Be...



Boa parte da imprensa do mundo todo consegue enxergar o erro que é tirar Dilma, nisso o brasileiro não copia os gringos

(Imagem: Beta Veja.com)


É até discutível o “ficar ou não ficar” da presidenta no poder do governo, alguns jornais mundiais estão divididos sobre esse assunto, assim como a população brasileira. Mas se tem um denominador comum que esses grandes jornais encontram para discursar sobre o Brasil, é o absurdo que é um país ter Eduardo Cunha como condutor do processo de Impeachment de Dilma Rousseff.

A votação que parecia uma mistura de circo com culto evangélico chamou a atenção da mídia internacional, claro que negativamente. O site da revista Der Spiegel (Alemanha) intitulou seu texto como ”A insurreição dos hipócritas”, onde dizia que o congresso brasileiro mostrou sua cara e apontou que tanto Cunha quanto Temer, sucessores de Dilma, são investigados por esquema de corrupção na lava jato. Ainda na Alemanha, o diário Süddeutsche Zeitung enxergou a contradição de políticos, acusados de corrupção, estarem acusando a presidente de um crime sem ter provas concretas. Dessa vez não tomamos 7x1 no campo futebolístico, e sim no campo jornalístico, visto que por aqui a grande maioria ficou em cima do muro.

O jornal britânico The Guardian botou em foco a ridícula posição de Bolsonaro ao dedicar seu voto a Carlos Ustra, visto por muitos como o pior torturador da época da ditadura. Já o espanhol El País enfatizou que o processo a ser orquestrado por Eduardo Cunha, que é acusado de obter contas milionárias na suíça com dinheiro desviado na lava jato, é “um sintoma da estrutura moral de boa parte do congresso brasileiro”.

Até os estadunidenses fizeram duras críticas a todo esse processo que está acontecendo. A revista de economia Fortune convidou o presidente da Brazilian Studies, Bryan McCann, para dissertar sobre o assunto e McCann foi implacável ao dizer que “Colocar o PMDB no poder para limpar a política brasileira é equivalente a limpar o chão com um esfregão sujo”. O brasileiro tem mania de imitar os americanos em quase tudo, em sua maioria coisas inúteis, mas quando um deles tenta abrir o olho da nossa população, damos uma de Demolidor.

O que mais me assusta é o quão claro está para a maioria dos estrangeiros a patética situação que vivemos no cenário político e nós custamos a enxergar, ou pior, enxergamos só de um lado. A culpa é do PT e não tem conversa, foi o PT que implantou a corrupção no país e ponto final. Vocês realmente acham que o Temer vai salvar o país? É ilusório acreditar que Eduardo Cunha está tendo todo esse “chilique” em prol do País.

Antes que me julguem, não sou defensor do governo Dilma, muito pelo contrário, sou a favor de novas eleições, as pedaladas fiscais foram um erro e deixar a economia brasileira chegar ao ponto que está, foi herança de uma má administração. Só que não coça a orelha de vocês o Cunha abrir esse processo de Impeachment 50 dias depois de sua cassação virar um fato?

Antes de começar a escrever esse texto me ascendeu uma luz que provavelmente Cunha será deposto da sua cadeira de presidente da Câmara dos Deputados. As acusações são claras, quebra de decoro parlamentar e desvio na lava jato para sua conta na suíça, que inclusive foi o motivo da quebra de decoro. Se não cassarem seu mandato muito provavelmente o povo vai protestar.

Dois presos na operação lava jato já citaram seu nome, João Augusto Rezende afirmou fazer uma transferência que era referente à compra pela Petrobras de uma área de exploração de petróleo na África. Fernando Soares confirmou que transferiu cinco milhões de dólares em propina em navios de sonda da estatal, ambas para sua conta na Suíça.


Porém, me ocorreu que provavelmente o Impeachment já vai ter acontecido e muito será colocado na conta, positivamente, de Cunha, que talvez tenha a cara de pau de se eleger a presidência com esse trunfo na manga, como o “salvador”. Se o Maluf está na política brasileira há mais tempo que o escritor em questão tem de vida, porque não ter um presidente que derrubou a atual presidência por, por, por.… qual o crime impiedoso mesmo que ela cometeu? Verdade, confiar no Temer.

Eduardo Cunha foi muito sagaz politicamente falando, tenho que concordar, ele desviou toda a atenção de seu processo, que já se tornou o mais longo da história, a ser resolvido com 173 dias desde a abertura de representação, abrindo o processo contra Dilma. A população diminuiu o pedido de sua cabeça e o STF teve que dar uma pausa no estudo de seus possíveis crimes.

Vivemos uma crise política muito séria e todos sabem disso, inclusive os grandes jornais do mundo, o argentino La Nacion vai mais fundo e vê as três crises que o Brasil sofre: política, econômica e moral. Por falar em países da América latina, existe um boato que alguns presidentes que formam o MERCOSUL já falam em excluir o Brasil caso a presidente Dilma seja deposta.

Eu sigo inconformado com o fato de uma grande parte da impressa mundial estar enxergando o que o brasileiro ou não enxerga, ou finge ser cego. É uma gigante contradição um cara como Eduardo Cunha abrir um processo de Impeachment dizendo que vai acabar com a corrupção.

Deputado Cunha, venho por meio dessa lhe dizer que o senhor é um cara de pau e devia cumprir com os seus deveres de presidente da Câmara dos Deputados. Com isso, investigar todo tipo de corrupção e não agir de má fé, olha que contradição, logo o líder da bancada evangélica. E antes de investigar a presidenta ir atrás de um por um do seu “departamento”. Eu acredito que quando somos líderes de algo, precisamos dar o devido exemplo, o senhor devia se envergonhar de sujar o nome do país desse jeito para o mundo todo, do fundo do meu coração, você devia ter um pingo, que seja, de honestidade, levantar a mão e dizer “eu sou culpado”. O seu Deus está vendo tudo isso Cunha, cuidado! Ele pode abrir um Impeachment contra você.

Em tempos difíceis, que cada vez mais extremistas ganham espaço e voz, a população necessita lembrar o que de fato aconteceu no dia 1 de ...


Em tempos difíceis, que cada vez mais extremistas ganham espaço e voz, a população necessita lembrar o que de fato aconteceu no dia 1 de abril de 1964 e as consequências desse golpe para o Brasil

Definição de tortura: dor violenta que se inflige a alguém, sobretudo para lhe arrancar alguma revelação; suplício
Se Deus existe, definitivamente ele não tem um afago por torturadores.

Muito tem sido debatido sobre a Ditadura Militar x Comunismo. Os argumentos para as pessoas que defendem a ditadura partem do pressuposto de que, se não fossem os militares, os comunistas teriam imposto uma ditadura comunista.

Talvez de fato tivesse ocorrido, mas não necessariamente podemos prever de qual forma seria esse “imaginável” governo comunista e nem se teria força suficiente para governar (ainda mais por quase 20 anos).

Não podemos trabalhar com o discurso de que, se tivesse acontecido,eles salvaram o Brasil. Trabalhamos com o que de fato aconteceu, hora ou outra podemos fantasiar situações, mas no fim o que nos resta são os fatos. E a ditadura militar é a realidade que gostaríamos de esquecer.

A censura, a revogação de direitos civis e constitucionais, a opressão, o maquiamento e a manipulação dos fatos, o estouro da dívida externa, e claro, as torturas mancharam a história brasileira e trazem consequências até os dias atuais ao nosso país.

Vídeo que traz relatos de sobreviventes da ditadura. Pessoas comuns ou da revolução armada, que foram presos, torturados e vivem hoje com as marcas das lembranças

Outro ponto muito usado como argumento é que os revolucionários contra a ditadura eram terroristas e bandidos. São citados os assaltos a bancos, sequestros e assassinatos. Dilma Rousseff inclusive é condenada em páginas com teores mais extremistas, como terrorista do Brasil.

No vídeo, Ivan Seixas, conta detalhes sobre como participou da luta armada aos quinze anos. Seu pai era líder de uma rede revolucionária clandestina e, ao contrário do que é pregado em vários sites, ele não era combatente militar dos “comunas”, era um mecânico que se juntou com um torneiro e um topógrafo para enfrentar, com vários trabalhadores, os militares. Ao contrário do que “pensam”, os assaltos aos bancos não eram para enriquecimento próprio, era para ter onde dormir, o que comer e vestir.

Os famosos sequestros aos embaixadores internacionais serviam apenas como moeda de troca dos “companheiros” presos pelo regime militar.

É bom ressaltar também, que muitas pessoas eram presas sem ter praticado qualquer ação revolucionária ou ato considerado “subversivo”. Apenas por você ser familiar ou amigo de alguém que estava sendo procurado, você corria o risco de ser preso ou pior, levado à tortura para contar coisas que literalmente não sabia.

O site e-farsas publicou, recentemente, um texto sobre seis boatos desmentidos que envolvem a presidenta Dilma na internet, o sexto é sobre a suposta ficha criminal que a incrimina por assaltos, assassinatos, sequestros entre outros.

Vídeos reacionários como esse, contextualizam o “ódio” criado em torno de falsas notícias, como o assassinato do soldado Mário Kozel Filho. Em qual Dilma é acusada de fazer parte

A própria Folha de São Paulo se retratou sobre ter postado a suposta ficha criminal de Dilma.

É necessária a leitura e uma maior averiguação para tirar conclusões melhores. Não sou um defensor de Dilma presidenta, a informação trazida aqui independe do governo petista. Mas foca na questão dos militantes, artistas, “subversivos”, que sumiram, foram mortos ou apanharam por um longo tempo.

Esmiuçar esses detalhes nos transforma, a ponto de não cometermos os mesmos erros que cometemos no passado.

Uma pessoa me disse esses dias: “Vencer na vida deve ser mais ou menos o que aconteceu com a Dilma Rousseff no dia da posse. Você ser presa, torturada, humilhada e sabe lá o que mais aconteceu pelos militares, e quase 50 anos depois você receber a saudação da continência, que é o respeito e apreço superior dos mesmos.”.
Pessoal a ideia era trazer alguns dados e fazer resenha de três filmes sobre tortura para dar uma refrescada do quão ruim foi esse momento para o Brasil. Mas fui me aprofundando nas pesquisas, e descobrindo os relatos, uma coisa puxou a outra e acabei focando mais nessa desmistificação desses boatos que rolam na internet.

Vou indicar os filmes, mas sem as devidas resenhas, até porque são filmes conhecidos, mas que valem ser revistos para dar uma refrescada na memória. -

O que é isso, Companheiro? – 1997

O ano em que meus pais saíram de férias. – 2006

Pesquisa aponta que 73% dos brasileiros estão insatisfeitos com a democracia; mesmo assim, ela é fundamental para que não sejamos vítimas d...

Pesquisa aponta que 73% dos brasileiros estão insatisfeitos com a democracia; mesmo assim, ela é fundamental para que não sejamos vítimas da influência de supostos “heróis” da Pátria.

A jovem democracia brasileira é aparentemente tão indesejada quanto necessária (Foto: Reprodução)
No texto da última semana, defendi a ideia de que a solução melhor para a saída da crise era as renúncias de Dilma Rousseff e Michel Temer, acompanhadas pela antecipação das eleições presidenciais de 2018 para esse ano. Sustentei essa visão baseada na necessidade de que o governo federal precisa recuperar sua credibilidade, e que essa tarefa seria muito facilitada caso houvesse uma legitimação das urnas.

Qual não foi minha surpresa ao entrar no G1, hoje (25) e me deparar com os resultados de uma pesquisa realizada pelo Ibope, que revela um grande apoio popular a essa medida. Segundo a pesquisa, nada menos que 62% dos brasileiros preferem novas eleições a um governo Michel Temer, ou ainda à continuidade do governo Dilma.

Em complemento a esse dado, há outro tão interessante quanto: para cada brasileiro que defende o impeachment da presidente, há três que preferem continuar com ela até 2018. Chega a ser meio paradoxal que a sociedade em geral seja tão crítica ao governo "que aí está", mas rejeite tanto a alternativa que prefira continuar com ele. Mas é o que a pesquisa sugere - ruim com Dilma, pior sem ela. Para mim, pessoalmente, isso só parece reforçar a tese de que Temer não tem condições de sustentar um governo sem o crivo eleitoral. Veja abaixo um resumo das respostas:



Análises e conjecturas à parte, porém, existe outro dado da pesquisa que vale ressaltar - e é algo relativamente mais relevante e simbólico, até. Fala da importância que o brasileiro supostamente dá à democracia em geral. Os resultados são, a meu ver, muito preocupantes.

Segundo o Ibope, nada menos que 73% dos brasileiros estão pouco ou nada satisfeitos com o funcionamento da democracia no Brasil. E pior: 49% da população não considera a democracia a melhor forma de governo possível - destes, 34% afirmaram que "tanto faz" (?) e outros 15% defenderam que, "em algumas circunstâncias", um governo autoritário é melhor. Um cenário extremamente hostil para uma nação que, até muito pouco tempo, estava afundada em uma sanguinária ditadura militar.

O posicionamento dos entrevistados, nessa pesquisa, me remeteu à infância. Eu já não sou o mais jovem da turma, tenho 28 anos (rs), e ainda me lembro muito bem de como aquele maldito Merthiolate (antiga fórmula!) ardia. Doía mais que o próprio ferimento. Mas tinha que aplicar, era o jeito... ruim com ele, pior sem ele!
Aparentemente, a população pensa da mesma forma: não é que eles achem a democracia um sonho, mas é melhor do que deixar os outros escolherem quem deve governar. E isso tem seu lado bom e seu lado ruim, como quase tudo na vida.

O lado bom é que o brasileiro, de um modo geral, entende que seu "protagonismo eleitoral" é sim importante, por mais que possa ser um dever indesejado por muitos. O fato de o voto ser obrigatório é um problema, infelizmente, porque obriga a sociedade a recorrer ao chamado "voto útil" mais vezes do que devia - como eu mesmo fiz em 2014. Assumir esse papel de protagonista da democracia é um pequeno passo adiante no longo processo de qualificação da democracia brasileira.

O lado ruim é que essa aparente falta de apreço ao processo democrático pode se transformar, em certas circunstâncias, no motivo perfeito para o surgimento de "heróis da nação", com seus discursos populistas e soluções simplistas, mas de forte apelo perante a sociedade. Muitas vezes, esses heróis surgem apoiados por poderosos grupos, e até mesmo pela grande mídia. Quase sempre, esses heróis acabam por se apropriar do poder popular e terminam afundando o país que pretendiam salvar.

Por sorte, aparentemente não chegamos a um estágio tal da crise política, que permita a qualquer um se colocar nesse papel. A figura política que mais se esforça para chegar lá é o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que nessa segunda-feira foi alvo de um pedido de cassação de mandato por parte da OAB-RJ, devido à exaltação feita ao coronel Brilhante Ustra durante seu voto no processo de impeachment da presidente Dilma, no último dia 17. Nas últimas pesquisas presidenciais para 2018, o parlamentar desponta com algo em torno de 8% das intenções de voto - o que não é pouca coisa.

Uma possível ascensão de Bolsonaro ao Planalto, apesar de perigosíssima, faria sentido dentro do atual contexto global. Exemplos recentes mundo afora mostram que a democracia, por incrível que pareça, tem sido o mais eficiente trampolim de "heróis". Sim, eles já não recorrem aos golpes de Estado para ascender. Para ficar em dois exemplos apenas, cito a vitória conquistada ontem (24) pela extrema-direita nas eleições presidenciais da Áustria, na figura de Norbert Hofer, do Partido da Liberdade da Áustria, com mais de 16 pontos de vantagem em relação ao segundo colocado; e a cada vez mais evidente indicação do bilionário Donald Trump à presidência dos EUA pelo Partido Republicano, a despeito de todas suas ideias retrógradas, xenófobas e racistas.

São tempos mais que difíceis para o Brasil e os brasileiros. Existe uma encruzilhada pela frente, e o caminho a se seguir está sendo, no momento, decidido por muito poucos. Mas será que a nação terá forças - e vontade - para se fazer ouvir e respeitar? Ou a catarse provocada por um eventual impedimento de Dilma Rousseff será o bastante para calar os anseios da população por um protagonismo mínimo nesse processo? É esperar pra ver, e torcer para que continuemos livres dos "heróis" de ocasião.

Ah! Eu cansei Ninguém me respeita Só ficam à espreita De se dar bem Ah! Eu cansei Toda eleição é a mesma putaria Os cafetões arma...

Ah! Eu cansei
Ninguém me respeita
Só ficam à espreita
De se dar bem

Ah! Eu cansei
Toda eleição é a mesma putaria
Os cafetões armam as armadilhas
E vocês não esquivam

Ah! Eu cansei
Raros acreditam em mim
Querem ir pra Europa ou até pra Pequim
Ou voarem na águia de marfim

Ah! Eu cansei
De lhes entregar tanta natureza
De lhe fazer tanta beleza
E vocês desmatarem
Poluírem
Arruinarem com toda essa ambição
Que se foda a constituição
Quem manda nessa festa é a religião
Presidente? Uma piada
Deus é quem manda nessa parada
E pior
Quando alguém decide pensar como humano
Vocês reclamam dos médicos cubanos

Ah! Eu cansei
E como cansei
Toda essa desigualdade
Culpa de um sistema arcaico
pela águia de marfim sustentado
Que vai eliminando os julgados
Que na mesa nem tem um pão

Ah! Eu cansei
Desse povo burro
Que protesta por um absurdo
Que sustentam Ipanema
E esquecem do alemão
De tantos míopes políticos
Que só usam óculos nos domingos

Cansei
De tanto lixo no chão
De tanta reclamação
De tanta escrotidão
De tanta violação
De tanta corrupção
De vocês sem nexo

Eu cansei
Desse crime desenfreado
Desse dinheiro jogado no ralo
Desses projetos mal estudados
Como não cansar?
É festa o ano inteiro
Oh povinho festeiro
Que rapidamente esquece o problema
E “ema ema” pra solução

Eu cansei
Vai tomar no cu toda essa mídia
Que manipula toda a matilha
Em direção à alienação
Estou cansado
De toda essa esquerda capenga
E dessa direita nojenta
Que só fazem minha imagem sujar
Só o pré-sal pra tentar me limpar
Não quero mais esse povo pra mim
Pra dormir estou tendo que tomar Dramin

Eu cansei
De tanta hipocrisia
De tanta homofobia
De tanta hegemonia
Eu cansei
Esse povo não me merece
Nenhum pensador mais me aparece
Vou deixar esse povo pra lá
Assim como me tratam não dá

Eu choro
Por cada criança cheirando cola
Dos adolescentes puxando marola
Do adulto virando alcoólatra
Do velho elogiando lá fora
Eu cansei
Vocês só sabem de mim reclamar
Dizendo "nesse país não dá"
Mas engraçado, ninguém quer nem tentar mudar

Ah! Eu cansei
De verdade cansei
De toda essa ditadura
Desse sistema que tanto fatura
Desse povo que tudo atura
De tanto Capitão Nascimento
De tanto Zé pequeno
Eu cansei pra caralho
De tanta desordem
De tanto regresso

Eu cansei
Vocês não tem o que reclamar de mim
Quem pode reclamar sou eu, de vocês, por serem um povo tão ruim
Eu realmente cansei...

A constituição afirma o estado laico, mas na prática é quase tudo em nome de Deus Cartoon por Carlos Latuff É difícil ser apa...


A constituição afirma o estado laico, mas na prática é quase tudo em nome de Deus

Cartoon por Carlos Latuff


É difícil ser apartidário numa época como essa, ou você é “coxinha” ou você é “petralha”. É difícil pensar no "quero o melhor para o meu país", sendo que o meu melhor pode ser extremamente diferente do seu.  

Essa divisão na política, esse “oito ou oitenta” acabou criando uma espécie de batalha entre os dois lados. De um lado, levanta-se uma bandeira colorida que defende o amor e os direitos humanos, do outro, levanta-se uma cruz a favor  da família e ao amor divino. 

Mas espera aí, o Brasil não é um país laico? Ou seja, uma posição neutra no campo religioso, tendo como princípio a imparcialidade nesses assuntos, o que nos dá a entender que, nenhuma doutrina religiosa pode ter influência na Constituição. Além disso, como pode um Estado que se diz laico privilegiar templos de qualquer culto com isenção de impostos? Que motivo levaria um Estado laico a beneficiar entidades religiosas que não assiste a uma população como um todo?  

As sociedades religiosas não pagam impostos e recebem subsídios financeiros para suas instituições de ensino e assistência social, e muitas delas exercem pressão sobre o Congresso, dificultando a promulgação de leis no que diz respeito à pesquisa científica, aos direitos sexuais e reprodutivos, da união homoafetiva, principalmente. 

Bom, se você assistiu o processo jurídico do impeachment, no último domingo, um número grande de políticos usaram seus votos para homenagear a Deus e a sua própria família, um horror pensar que políticos que nos representam param pra pensar primeiro em suas próprias ideologias religiosas, e em segundo, na sua própria família, e em terceiro ou quarto, talvez quinto, na população brasileira como um todo. 

Os direitos humanos que o outro lado, “colorido”, insiste em colocar em pauta, asseguram direitos e liberdades básicas de todos os seres humanos. Seu conceito também está ligado com a ideia de liberdade de pensamento, de expressão, e a igualdade perante a lei. No entanto, no país, como já citado, há uma forte atuação de certos grupos religiosos inserindo em suas propostas políticas, reflexões que variam entre sexualidade, convenções sociais e culturais, que regulam as condutas do indivíduo, tentando empurrar suas doutrinas no que diz respeito à liberdade e direitos igualitários.

 A questão é a seguinte, as igrejas podem até manifestar indignação, mas jamais podem decidir algo, a resolução é totalmente do Estado, que da mesma forma que garante o direito de culto, garante, ou pelo menos deveria, a indiferença religiosa, uma vez que as leis nascem no Congresso Nacional, já que deputados e senadores trabalham na elaboração e aprovação de cada lei que norteia os direitos dos cidadãos. A bancada fundamentalista de evangélicos e católicos do Congresso Nacional está atuando de forma indiscriminada, criando ações, como projetos de lei, que colocam em risco a laicidade do Estado brasileiro. 

Atualmente, o movimento evangélico no Brasil cresceu deliberadamente, construindo uma bancada que segue essa doutrina, o que comprometeu as boas relações de convivência entre os mais diversos segmentos religiosos do país, e resultou em agressões e ataques deste ou daquele grupo, desencadeando uma onda de intolerância e rivalidade totalmente desnecessária. Será mesmo que é desse jeito que o Brasil terá um futuro melhor?

Aparentemente, os artistas de hoje  já não fazem mais a hora... p referem esperar acontecer Que vivemos uma crise artística no celeiro...

Aparentemente, os artistas de hoje  já não fazem mais a hora... preferem esperar acontecer



Que vivemos uma crise artística no celeiro nacional todos já estão cansados de saber. Talvez os maiores alvos sejam a música e a dramaturgia, mas esse assunto não pode ser o foco em um blog de política, entretanto, o que venho questionar é a falta de envolvimento e engajamento da classe artística no momento delicado que o país enfrenta.

Se em 1978, Renato Russo lançava a pergunta “Que país é esse?” em uma música com a sua letra pra lá de política, hoje fica cada vez mais difícil encontrarmos artistas que se comprometam e não tenham medo de perder “likes” por tomar um partido, desculpe o trocadilho, com a situação do Brasil.

Sejamos justos a aqueles que representam a arte como de fato eu enxergo que ela deva se posicionar, criticando, e não se calando só porque querem aparecer no especial de natal do Roberto Carlos, que inclusive fez parte da Jovem Guarda na época da ditadura, grupo que servia de exposição para alienar e divertir a sociedade do espetáculo que estava sendo formada pelos militares.

O maior exemplo, acredito eu, seja Monica Iozzi que surpreende aquele que vos escreve de forma muito positiva com seus tweets. Monica trabalhou alguns anos no programa CQC, da Band, onde ela era repórter política, portanto, vivia tentando entrar no planalto e no congresso. O CQC era proibido de adentrá-los para poder fazer algumas perguntas um tanto quanto ”agressivas” a aqueles que trabalham, ou deveriam trabalhar, no âmbito político brasileiro.

Pois bem, Monica transferiu-se para a Rede Globo onde afastou-se desse segmento e seguiu um caminho como atriz e apresentadora. Todos sabem que artistas globais costumam ser bonecos de cera que procuram evitar situações que possam sujar sua imagem, e é aí que Monica Iozzi me surpreende, por exemplo ao retweetar de Mauricio Stycer a seguinte frase: “Globo, Record, SBT, Band e RedeTV! Ignoram pronunciamento de Dilma. Gazeta exibiu trechos ao vivo.”  Uma posição que até poderia lhe custar o emprego na emissora.

Mesmo com uma possível intimidação da sua contratante, não pestanejou em tweetar, um dia depois da votação na Câmara dos Deputados pela abertura do processo de Impeachment da presidenta Dilma Rouseff, a seguinte frase “Ver @MichelTemer já se comportar como presidente é nojento, mas esperado. Revoltante é a imprensa já analisar os “possíveis” ministros.” Por esses e outros tweets, que demonstram sua coragem em defender seu direito de expressão, é que destaco Monica Iozzi como uma das artistas brasileiras que tem meu singelo respeito.

Outro artista que sou fã de carteirinha é Gregório Duvivier, que aparentemente defende um ponto de vista mais esquerdista e mesmo assim tem uma coluna no jornal Folha de São Paulo, que é visado como um jornal com uma diretriz de direita. Gregório talvez me surpreenda um pouco menos que Monica Iozzi pelo simples fato de ser praticamente “autônomo” na visão de que ele é um dos fundadores de um dos maiores, se não for o maior, portais de humor, o Porta dos Fundos. De certa forma, sua liberdade para criar fica mais ampla por ter a seu dispor um canal midiático com mais de onze milhões de inscritos que seguem fielmente o grupo humorístico.

Claro que essa visibilidade toda tem seu lado “ruim”, principalmente em um momento onde o país começa a levar as discussões políticas com fanatismo, como se estivessem discutindo futebol ou religião, e a polêmica começou assim que foi divulgado o vídeo “Delação” que faz uma crítica na forma duvidosa que a polícia federal rege as suas investigações. Para o orgulho deste editor, não só Gregório, como o Porta dos Fundos, bancaram o seu posicionamento e com humor, o que melhor sabem fazer, responderam com o vídeo “Reunião de emergência 3” onde de forma sarcástica brincam com a maior crítica que receberam, o fator X do discurso da maioria, aquela palavra que me incomoda particularmente “vendidos”.

Gregório também postou um vídeo em sua conta particular, um dia antes da votação na Câmara dos Deputados, que de forma inteligentíssima mostra o ponto negativo do Impeachment, ou seja, são quase doze minutos falando de Michel Temer, que provavelmente tomará posse caso Dilma deixe o poder. Gregório já disse em entrevista que tem maconha plantada em seu quintal na espera da polícia ir prendê-lo, claro que é uma forma de protesto perante a legalização da maconha e mostrar como a lei funciona com base na sua classe social e racial.

É um artista que escreve, atua e tem a preocupação de se politizar e demonstrar sua posição seja no Porta dos Fundos, na Globo, na Folha de São Paulo ou em entrevistas nacionais e internacionais.

A atriz Cássia Kis teve seu momento de se vira nos 30 no próprio Faustão, mas independentemente de sua posição ela merece estar nesse texto por ter feito uma cobrança correta, porém em lugar e momento inapropriado. Eu nunca havia visto a atriz falar sobre política em qualquer outro lugar, mas em momento delicado do país ela decide "por a boca no trombone", o programa estava ao vivo no mesmo dia que acontecia uma manifestação contra o governo, dia 13/12/2015.

O apresentador Faustão achou correto em uma entrega de prêmio anual dar esse espaço aos artistas e Cássia o fez emocionada mesmo, particularmente eu não gosto desse tipo de exposição onde o artista solta a bomba apenas para ganhar aplausos e depois volta a se calar, isso sim é se virar nos 30. No mesmo programa Alexandre Nero e Tonico Pereira retrucaram a atriz, mesmo que desmintam. Um, pedindo que as pessoas se informassem mais e o outro, fazendo uma crítica a Câmara dos Deputados que seria em sua visão o verdadeiro problema do país. Alexandre Nero tem o costume de falar sobre política em sua rede social, porém de uma forma bem branda e até um pouco ensaboada, muito diferente, por exemplo do seu companheiro de profissão Wagner Moura que muitas vezes sofre com a sua posição “petista”.

Podemos ver que no meio dos atores temos até uma resposta interessante, embora não esteja cem por cento em ligação para formar um elo que mude algo, devemos destacar o embrião positivo que nasce com essas posições e discussões. Já no cenário musical, o buraco é muito mais embaixo.

Se na época da ditadura militar tivemos a música fortemente na luta contra o golpe, nos dias de hoje a geração que sucedeu a Chico Buarque, Caetano, Gil e tantos outros, procura-se esquivar quando o assunto é política. Não somente em suas posições, mas são poucas as letras que falam sobre o assunto.

Talvez o exemplo que mais lembrou os tempos de tropicália foi o do cantor Dani Black, que escreveu uma música chamada “O Trono do Estudar” que fala sobre o momento crítico que São Paulo vivia com a tal “Reforma escolar” proposta por Geraldo Alckmin. Estudantes ocuparam escolas estaduais em protesto à medida que visava fechar aproximadamente 162 unidades. Instigado por esse ato da população, principalmente por serem jovens estudantes, o cantor juntou dezoito artistas, entre eles Chico Buaque, Zélia Duncan, Paulo Miklos e Dado Villa-Lobos, para gravarem a música que foi postada no Youtube.

Mesmo sem nenhuma visibilidade televisiva, teve mais de 230 mil visualizações e sem dúvida um engajamento enorme para aqueles que foram lutar por seu mais simples direito, inclusive esse vídeo foi o pontapé inicial para shows beneficentes que foram feitos por artistas renomados nas escolas ocupadas. Porém, isso é muito pouco, mesmo tendo uma causa, uma letra e melodia, uma movimentação artística significativa e principalmente a internet, “O Trono do Estudar” não chegou nem perto de se tornar “Pra não dizer que não falei de flores” de Geraldo Vandré.

Obviamente a causa não era tão grande quanto contra a ditadura, isso temos que ter em mente, mas o problema é que se voltássemos a 1964 com a realidade artística que temos hoje, eu tenho receio do resultado que teríamos. Muitos dizem que precisasse de um vilão para nascerem os heróis, mas o que fazemos quando nossos heróis morreram de overdose e AIDS?

Existem artistas que se posicionam, o problema é que não têm organização, estão cada um olhando para sua programação de shows e nada mais importa. Todos deveriam se juntar para ser a voz do povo, para ser o estopim da mudança, não só rostinhos bonitos. Suas músicas deveriam fazer as pessoas pensarem, refletirem, não servir de enfeite na abertura da novela.

Vou ser justo e dizer alguns nomes que usam a crítica política em suas músicas, porque esses também merecem nossa atenção, como Fabio Brazza e Mc Garden que fizeram a música “Geração de Pensadores” jogando muitas verdades em nossa cara, o segundo tem o propósito de criticar o governo em muitas músicas. Temos Gabriel Pensador, algumas letras do Forfun (banda que já não existe mais), Criolo...

Fiz o esforço máximo que pude para lembrar desses artistas e foi bem difícil, caso você leitor saiba de algum artista escreve aí nos comentários, porque me entristece muito ver que conseguiram calar a classe daqueles que deveriam ter voz ativa! “Pai, afasta de mim esse cálice”.

Soluções aparentemente milagrosas para resolver problemas graves, normalmente, escondem segundas intenções em suas nuances. Essa regra nã...

Soluções aparentemente milagrosas para resolver problemas graves, normalmente, escondem segundas intenções em suas nuances. Essa regra não encontra exceção no plano Temer de tomada do poder

Michel Temer é o maior beneficiado pelo impeachment de Dilma Rousseff (Foto: Rose Brasil / ABr)
Almejada pelos alquimistas e citada na mitologia grega, a panaceia significa basicamente a cura de todas as enfermidades ou algo capaz de resolver todos os problemas.

É isso que intimamente a maioria das pessoas acredita que deve acontecer após o impedimento de Dilma Rousseff.

Essa ilusão se dá por conta de vários motivos, mas principalmente a desinformação política exercida pela maioria dos brasileiros.

Se alguém acreditou que o dólar ontem estaria a R$ 1,00, talvez tenha tido uma surpresa ao ver o mesmo subindo quase 10 centavos (2%).

O impedimento mesmo que futuramente seja em definitivo não será a cura que o Brasil precisa. Não podemos negar que ele possa, e deva dar certo fôlego para a economia, atraindo investidores nesse próximo semestre. Mas estamos muito longe de encontrar a panaceia que o Brasil precisa.

Criação: Luis Gustavo Paffaro (FSP)
Não será em Dilma, muito menos em Temer, que protagonizou nessas últimas semanas mais um momento histórico negativo para o Brasil.

As articulações escancaradas, o conchavo que uniu progressistas, cristãos, coronéis, empresários, militares, PSDB e PMDB, além de muitos corruptos, deixa nítido que a proposta de Temer é governar. Ele não está de passagem, nem muito menos vai abrir mão do principal cargo público do Brasil para seu sucessor Eduardo Cunha.

Tal foi que, sublimemente, Michel Temer nos apresentou sua personalidade, seja na tal carta em que víamos uma pessoa doída por não fazer parte da festa, até o absurdo vazamento do áudio. Vou ser sincero com vocês, não me imagino gravar um áudio no WhatsApp por mais de 13 minutos e sem querer enviar a um grupo.

Tais infantilidades, culminou na votação expressiva do impeachment ontem e que posteriormente deve ser aprovado com uma certa diferença também no senado.

Temer me deixou abismado, mas bem mais do que ele, só a desinteligência do Partido dos Trabalhadores. 

Não consigo conceber as últimas “cartadas” do PT pré-impeachment.

Lula era um coelho da cartola, definitivamente o PT sabia que a hora que precisasse, tiraria ele de lá e “voilà”, ele salvaria o partido, o Brasil e talvez o mundo.

Mas deixaram o coelho tanto tempo lá, enclausurado e quietinho, que quando o tiraram, havia morrido.

Lula foi convocado tarde demais por Dilma (Foto: Adriano Machado / Reuters)
Sim, Lula ainda está vivo, mas não é  mais o “líder” brasileiro que salvou milhões, e sim de mais um político corrupto condenado pela opinião pública.

Penso que, se Lula tivesse sido chamado pela Dilma três meses antes, a repercussão seria bem menor e ele assumiria tranquilamente a Casa Civil, faria seu jogo político e o impeachment provavelmente demoraria mais alguns meses para ser votado.

Outro erro foi o pacto proposto quase como um último suspiro caso o impedimento não fosse aprovado. Seis meses antes uma proposta de diálogo, com os aliados e a oposição, talvez tivesse surtido, mesmo que remotamente, um efeito positivo na votação de domingo. Entre outras coisas que ao longo desses últimos seis meses fomos assistindo, como o próprio PT se sabotando, além de claro, os opositores partindo para cima com todas as armas possíveis para queimar ainda mais a imagem do partido.

O resultado de domingo não surpreende. Nas contas de Temer ele errou por um voto. Na de Dilma por 26.

(Foto: Alan Marques / Folhapress)
O impedimento deve sim ser aprovado pelo senado, não vejo mais governabilidade por parte do governo atual, e caso o STF julgue a favor de Dilma, seria uma afronta contra a opinião pública desnecessária, que só desgastaria ainda mais a imagem do partido com a população.

A melhor saída agora, na minha opinião, seria Dilma apresentar para a sociedade a carta de renúncia nessa semana, mas com a garantia de que Temer também renunciará, e claro que seria convocado agora em outubro, eleições gerais.

Seria digno para a presidenta, tiraria um pouco do peso que só está nos ombros dela e do PT, e seria sim um cheque mate para o plano Temer de governar o Brasil.

Mas como eu diria, e talvez alguém já tenha dito, hoje está mais fácil acertar a previsão de quantos graus vai fazer daqui a um mês do que imaginar o que o dia de amanhã nos reserva na política.

Diante de uma das maiores crises institucionais da nossa história, somente o impeachment não irá resolver: só o povo pode recolocar o Brasi...

Diante de uma das maiores crises institucionais da nossa história, somente o impeachment não irá resolver: só o povo pode recolocar o Brasil no caminho da normalidade

Dupla Dilma-Temer não conseguiu protagonizar um governo de unidade, levando o país à falência política; ruptura era desastre anunciado (Foto: Romério Cunha / Página de Michel Temer no Flickr)
Depois de 24 anos, o Brasil voltou a testemunhar a sua Câmara dos Deputados aprovar o que muitos consideram como um dos mecanismos mais graves permitidos pela Constituição: o impeachment. Foram quase dez horas de sessão, e uma sequência bizarra, e quase surreal, de manifestações destemperadas daqueles que, teoricamente, deveriam ser os representantes do povo - mas que pareciam, na verdade, representantes de suas famílias e de Deus, a figura mais citada nos pronunciamentos.

Não foi à toa que muitos ironizaram as justificativas de voto da enorme maioria dos 367 deputados que votaram a favor. Quem tivesse que presumir do que o processo se tratava, somente ao ouvir os porquês dos votos "sim", iria concluir facilmente que a presidente Dilma deve ser afastada por não gostar dos filhos e netos dos ilustres deputados. Ou porque ela não é, digamos, muito "parça" de Deus. Complicado, não?

Por outro lado, muitos dos 137 votos contrários também fizeram jus à cegueira radical com que o processo tem sido analisado. Os governistas seguem batendo nas mesmas teclas: Dilma é vítima, e o impeachment é um golpe disfarçado. Como levar um dos lados a sério?

Pessoalmente, apoiei a eleição de Lula 1, Lula 2, Dilma 1 e Dilma 2. Militei pelo PT, partido ao qual fui filiado de 2004 a 2014, em duas dessas quatro eleições, e na última o meu voto foi mais contra Aécio do que a favor de Dilma. Apesar disso tudo, não compartilho da tese de golpe - afinal o processo está legalmente estabelecido e seu mérito não foi julgado. Não há ilegalidade nas ações dos denunciantes, Hélio Bicudo e Janaína Paschoal. Sequer há erros regimentais na condução do processo pela odiosa figura de Eduardo Cunha - por mais corrupto que possa ser, o presidente da Câmara conhece o regimento da casa, e sabe usá-lo como ninguém.

No entanto, a legalidade do processo não o torna isento do julgamento moral. E é nesse ponto que defendo a inocência de Dilma. As práticas denunciadas no processo de impeachment podem ser condenáveis, porém não são ilegais. Poucos são os que conseguem encaixar, sem sombra de dúvidas, os créditos suplementares assinados pela presidente, bem como as pedaladas fiscais, dentro de um dos artigos que listam os crimes de responsabilidade previstos na lei. Todas as tipificações dependem de uma análise subjetiva das ações de Dilma, para que se justifiquem. E para mim, isso é o mesmo que torcer a lei até que ela se encaixe no cenário desejado pelos seus opositores.

Engana-se quem acredita genuinamente que o possível (e a essa altura provável) afastamento da presidente irá resolver algo. Seu substituto, o vice-presidente Michel Temer (PMDB), possui rejeição tão grande quanto à da petista,. Tal apontamento é reforçado pelo fato de o mesmo ter sido beneficiário máximo do projeto de poder que agora rejeita com todas as forças. Incoerência e traição dos tipos que que nunca ficam totalmente impunes ou esquecidas, especialmente em um ambiente sujo como o de Brasília. Tenho sérias dúvidas de que um governo Temer teria sustentação e equilíbrio para tirar o Brasil da lama. Tampouco acredito que o governo Dilma tenha saída ou possa se manter até 2018 sem consequências mais terríveis ainda para o Brasil.

Resumindo: vivemos uma situação ímpar na história do Brasil, pois nenhuma das soluções legalmente possíveis para a saída da crise é boa. Nesse caso, o que fazer? Como devolver ao Brasil um mínimo de estabilidade?

Penso que a solução é aquela que vem ganhando cada vez mais voz e força: o chamado "Nem Dilma, nem Temer", lançado pela Rede Sustentabilidade no último dia 5. Por mais que esteja sendo encampado pela ex-presidenciável Marina Silva, que segundo as pesquisas mais recentes é uma das favoritas em uma possível eleição presidencial (ao lado de, pasmem, Lula), é a única forma válida, a meu ver, de romper com a ordem institucional sem que seja, de fato, um golpe de Estado. Afinal de contas, o poder de escolha do chefe da Nação seria do povo. É, talvez, a única solução possível.

Seria melhor ainda se esse movimento fosse patrocinado também pelo governo, especialmente por Dilma. Não haveria forma mais perspicaz de dizer à população que ela sabe que falhou na condução do país e que deseja devolver a ela o direito de escolher seu futuro. Aí caberia ao povo, e somente ele, pressionar para que a ideia fosse aprovada e novas eleições presidenciais fossem convocadas.

Até mesmo os opositores de Dilma não negam que ela é uma mulher honesta. Talvez, ela apenas esteja no lugar errado, e na pior hora possível. Mas acima de Dilma está o Brasil, e o Brasil merece uma nova chance. A pergunta é: estamos prontos para isso?